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Qualidade do sono e sua influência na saúde mental de estudantes de graduação da UFS

Vitória Andrade

Resumo

Este estudo investigou a relação entre a qualidade do sono e a saúde mental dos estudantes de graduação da Universidade Federal de Sergipe (UFS). A amostra foi composta por 423 estudantes, com idade média de 21,8 anos, predominantemente do sexo feminino (64,3%) e solteiros (96,5%). Os resultados revelaram que 81,1% dos estudantes apresentavam qualidade de sono ruim, de acordo com o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI). Correlações significativas foram encontradas entre a qualidade do sono e a área do curso (p=0,027), o meio de transporte (p=0,026), a empregabilidade (p < 0,001), o tempo de lazer (p < 0,001), o uso de drogas (p=0,039), realização de tratamento psiquiátrico e/ou psicológico (p=0,038), uso de ansiolíticos e/ou antidepressivos (p=0,048) e a ocorrência de sonecas diurnas (p=0,045) Além disso, 49,2% dos participantes apresentaram sonolência diurna excessiva, observado pela Escala de Sonolência de Epworth. Houve uma correlação positiva fraca, mas significativa (R=0,230; p < 0,001), entre a sonolência diurna excessiva e o nível de sofrimento mental, que foi encontrado em 97,7% da amostra (45,9% leve, 40,7% moderado, 10,9% grave). No entanto, não foi encontrada correlação significativa entre a qualidade do sono e o nível de sofrimento mental (p=0,457), nem entre a qualidade do sono e a sonolência diurna (p=0,065). Este estudo ressalta a alta prevalência de má qualidade do sono e sofrimento mental entre estudantes universitários e destaca a necessidade de futuras pesquisas para aprofundar a compreensão das causas e propor intervenções eficazes.

Palavras-chave: sono; saúde mental; estudantes universitários.

1 Introdução

Muitos estudantes universitários obtêm sono insuficiente, possuem uma latência de início de sono prolongada e geralmente apresentam qualidade de sono ruim, resultando em um impacto significativo no seu funcionamento diurno (BECKER et al., 2018). Um ciclo irregular de sono-vigília, com curta duração de sono durante os dias úteis e horários mais tardios de despertar nos fins de semana, resulta de um alto nível de estresse vivido, do enfrentamento de uma rotina menos pré-estruturada e de novos desafios, como tomar decisões importantes para a vida, estabelecer identidade e objetivos futuros, viver de forma independente, administrar demandas acadêmicas, lidar com finanças e modificar e adotar novos padrões sociais existentes (SARUHANJAN et al., 2021). Essas alterações nos hábitos do sono dos estudantes, mesmo quando limitadas, podem ter implicações significativas para o início de problemas de saúde mental (MILOJEVICH; LUKOWSKI, 2016).

62% dos participantes foram classificados como dormidores ruins, com baixa qualidade de sono e relatos de irem para a cama meia hora mais tarde do que os bons dormidores, além de demorarem 21 minutos a mais para adormecer e possuírem mais que uma hora a menos de duração de sono a cada noite. Sobre a saúde mental dos participantes, sintomas de ansiedade foram associados a mais distúrbios do sono e uso de medicamentos para dormir, enquanto sintomas depressivos foram ligados a maior disfunção diurna. Ainda no mesmo estudo, as mulheres apresentaram um sono pior em grande parte dos domínios do sono, sendo correlacionado com maior ansiedade. As dificuldades de sono aumentaram o risco de pior funcionamento acadêmico, desregulação emocional e aumento da sonolência diurna (BECKER et al., 2018).

Os distúrbios do sono noturno aumentam o risco de depressão, somatização, comportamentos obsessivo-compulsivos e sofrimento psicológico em estudantes universitários (MILOJEVICH; LUKOWSKI, 2016; TAYLOR et al., 2011.). O estudo feito por Milojevich e Lukowski (2016) relacionou a duração e a frequência de interrupções do sono noturno aos problemas totais e sintomas clinicamente relevantes de sofrimento psicológico. A perturbação do sono representa uma importante contribuição para o caminho complexo e multifatorial de pensamentos e comportamentos suicidas (RUSSELL et al., 2019). Os resultados do estudo de REIS et al. (2021) indicaram que a dificuldade em adormecer e maus hábitos de sono estavam associados à percepção de desempenho acadêmico ruim ou razoável, maiores níveis de preocupações e ansiedade, e menores níveis de autorregulação e resiliência, colocando em risco a saúde mental dos estudantes universitários.

Dentre várias outras formas, a dimensão em que o sono está relacionado à saúde psicológica pode ser avaliada pela extensão em que as intervenções que melhoram a qualidade do sono também melhoram a saúde mental. Dessa maneira, uma meta-análise confirmou os efeitos positivos na harmonia psíquica após uma intervenção que melhorou o sono (SCOTT et al., 2021). Essa alteração levou a um efeito significativo na saúde mental composta, depressão, ansiedade, ruminação, estresse e nos sintomas positivos da psicose. Distúrbios do sono não são apenas prevalentes entre os transtornos psiquiátricos, mas também podem, por si só, aumentar o risco de tais transtornos se desenvolverem mais tarde na vida (ALMARZOUKI et al., 2022; KRYSTAL, 2012).

No contexto das tendências sociais contemporâneas, o notável declínio na duração do sono entre os jovens foi um fenômeno que se desenvolveu junto do aumento do envolvimento nas mídias sociais (LI; LI; LUO, 2024; TWENGE; KRIZAN; HISLER, 2017). Estudantes universitários com considerável vício em celulares ou na internet geralmente possuem níveis mais baixos de qualidade de sono, dando origem a sintomas depressivos e transtornos afetivos (ALLOY et al., 2017). Os indivíduos privados de sono são mais predispostos do que seus equivalentes bem descansados ao vício em internet ou telefones celulares, sofrendo de um alto risco de problemas de saúde mental (REIS et al., 2021). Uma das associações é a tendência de pessoas com problemas de sono recorrerem a sites de redes sociais como uma estratégia de enfrentamento ou auxílio, em busca de prazer e passar o tempo (LI; LI; LUO, 2024). O estudo de YANG et al. (2023) sugeriu que o vício em celulares e a qualidade do sono afetou de forma negativa o bem-estar psicológico. O vício em tecnologia interrompe os padrões normais do sono dos estudantes universitários, o que representa um alto risco para o equilíbrio emocional (CHEN et al., 2016).

Os anos letivos são um período de vulnerabilidade quando se considera os problemas de sono e a saúde mental (REIS et al., 2021). A alta prevalência distúrbios de sono e transtornos mentais em um momento de grandes transições influencia consideravelmente a vida futura dos estudantes universitários, uma vez que esse período crítico é substancial para eventos básicos da vida, como a conquista de níveis educacionais (AUERBACH et al., 2018; BRUFFAERTS et al., 2018). Embora alguns alunos que sofrem de má qualidade do sono e problemas comuns de saúde mental possam se recuperar de forma independente, muitos alunos precisarão procurar ajuda para superar esses problemas com sucesso (COLLINS et al., 2004; ZOCHIL; THORSTEINSSON, 2018). Entretanto, a maioria dos universitários diagnosticados com ansiedade ou transtorno de humor no estudo de BLANCO et al. (2008), não procuraram nenhuma forma de tratamento, como visitar um médico ou psicólogo ou tomar medicamentos relevantes. Os altos níveis de depressão, ansiedade e estresse foram associados à diminuição da qualidade do sono e diminuição da intenção de buscar ajuda (ZOCHIL; THORSTEINSSON, 2018). Esses achados são preocupantes porque interferências na qualidade do sono tendem a se intensificar, resultando em redução da saúde psicológica.

No estudo de ZIVIN et al. (2009), em uma avaliação inicial, aproximadamente 25% dos estudantes universitários que não relataram um problema no equilíbrio emocional, acabaram relatando um problema de saúde mental 2 anos depois. Aproximadamente 60% dos estudantes informaram experimentar pelo menos um problema de saúde mental ao longo do tempo, sendo que 50% dos estudantes que indicaram complicações continuas no bem-estar psicológico em todas as avaliações não procuraram tratamento. Como os hábitos de sono dos estudantes tendem a piorar com o tempo, mesmo uma experiência limitada de problemas de sono pode ter implicações significativas para o início de interferências na harmonia psíquica (FORD, 1989; MILOJEVICH; LUKOWSKI, 2016). Essa constatação é alarmante, já que estudantes universitários vivenciando uma variedade de estressores demonstram um aumento no início de questões relacionadas à saúde mental (AUERBACH et al., 2018), como problemas de personalidade antissocial, ansiedade, déficit de atenção/hiperatividade, problemas depressivos e queixas somáticas (MILOJEVICH; LUKOWSKI, 2016). Logo, os potenciais benefícios de intervir precocemente com o objetivo de melhorar os resultados de saúde psicológica antes que se tornem clinicamente preocupantes são indispensáveis.

Portanto, as descobertas de estudos direcionados à relação entre sono e saúde mental entre os estudantes universitários são relevantes não apenas para os alunos, mas também para os orientadores universitários e partes interessadas em promover a saúde dos jovens (REIS et al., 2021). Isso porque problemas de sono experimentados por estudantes de graduação podem não ser inconsequentes, tendo a capacidade de desenvolver obstáculos mais significativos ao longo do tempo (MILOJEVICH; LUKOWSKI, 2016). Como os distúrbios do sono e a insônia geralmente começam durante os anos de faculdade, esse é um momento essencial para intervenções antes que se torne significativo (LUND et al., 2010; SARUHANJAN et al., 2021). É durante o período acadêmico que os alunos dormem menos tempo, usam mais medicamentos e possuem mais distúrbios do sono e disfunção diurna em comparação com o período de férias (ALMARZOUKI et al., 2022). O impacto de vários componentes da qualidade do sono no estado mental saudável também é informativo, visto que a qualidade global do sono e seus componentes individuais podem estar diretamente associados aos resultados de saúde mental (MILOJEVICH; LUKOWSKI, 2016).

2 Objetivos

  • Avaliar a qualidade do sono e os fatores associados em estudantes universitários da graduação da Universidade Federal de Sergipe;
  • Identificar a prevalência de transtornos mentais comuns entre os estudantes universitários da graduação;
  • Analisar a associação entre qualidade do sono e prevalência de transtornos mentais comuns nestes estudantes.

3 Método

3.1 Tipo de estudo

Trata-se de um estudo de corte transversal, observacional, descritivo e analítico, com abordagem quantitativa.

3.2 Local da pesquisa

Esse trabalho foi realizado na Universidade Federal de Sergipe. A pesquisa foi conduzida nos campi destinados à graduação, com a participação de universitários de diversas áreas do conhecimento.

3.3 População e amostragem

A população do estudo foi composta por estudantes de graduação da UFS, regularmente matriculados nos campi de São Cristóvão, Aracaju, Nossa Senhora da Glória, Lagarto e Itabaiana. Essa pesquisa incluiu graduandos de diversos cursos, abrangendo as seguintes grandes áreas: Ciências Sociais Aplicadas, Linguística, Letras e Artes, Ciências Biológicas, Engenharias, Ciências Exatas e da Terra, Ciências da Saúde, Ciências Agrárias e Ciências Humanas. A amostragem foi não probabilística por conveniência, o que significa que os participantes foram selecionados de acordo com a acessibilidade e disponibilidade deles.

3.4 Critérios de inclusão e exclusão

Foram incluídos estudantes regularmente matriculados em qualquer curso de graduação da Universidade Federal de Sergipe, de ambos os sexos, com idade igual ou superior a 18 anos e que assinaram o Termo de Livre Consentimento Esclarecido (TCLE). Foram excluídos estudantes menores de 18 anos, com matrícula inativa ou que não estivessem frequentando regularmente as aulas e realizando atividades acadêmicas de forma regular.

3.5 Coleta de dados e instrumentos

A coleta de dados ocorreu entre setembro de 2024 e março de 2025. Os dados foram coletados usando o Google forms, versão online, contendo os seguintes instrumentos: questionário sociodemográfico, questionário Matutinidade-Vespertinidade (MEQ-SA), Índice de qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI) e Escala de sonolência de Epworth (ESS).

O índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI) avalia a qualidade do sono considerando um período de 1 mês. O questionário é composto por 19 perguntas de autoavaliação e 5 perguntas dirigidas a parceiros de cama ou de quarto. Essas últimas são utilizadas apenas para fins clínicos. As 19 perguntas são organizadas em 7 componentes, cada um avaliado com uma pontuação entre 0 e 3. Os componentes do PSQI incluem: qualidade subjetiva do sono (C1), latência do sono (C2), duração do sono (C3), eficiência habitual do sono (C4), distúrbios do sono (C5), uso de medicamentos para dormir (C6) e disfunção diurna (C7). A soma das pontuações desses 7 componentes gera um escore total que varia de 0 a 21, sendo que valores mais altos indicam pior qualidade do sono. Um escore global acima de 5 sugere dificuldades significativas em pelo menos 2 componentes ou dificuldades moderadas em mais de 3 componentes.

A Escala de Sonolência de Epworth (ESS) consiste em oito itens que descrevem diferentes contextos do dia a dia, nos quais o indivíduo deve avaliar a probabilidade de cochilar ou adormecer. Cada situação é pontuada de 0 a 3, onde 0 indica nenhuma chance de cochilar, 1 representa uma leve chance, 2 uma chance moderada e 3 uma alta chance de adormecer. A soma total das pontuações varia de 0 a 24, sendo que valores iguais ou superiores a 10 sugerem sonolência diurna excessiva, o que pode indicar a necessidade de investigação clínica para distúrbios do sono.

O Questionário de Auto-relato (SRQ-20) é composto por 20 itens com respostas dicotômicas (sim/não), nos quais cada resposta afirmativa recebe um ponto, resultando em uma pontuação total que varia de 0 a 20. A interpretação da pontuação permite classificar o nível de sofrimento mental do indivíduo: escores entre 1 e 7 indicam "sofrimento leve", entre 8 e 14 "sofrimento moderado", e entre 15 e 20 "sofrimento grave". Valores superiores a 7 são geralmente considerados indicativos de sofrimento mental significativo, sinalizando a necessidade de avaliação clínica mais detalhada.

3.6 Aspectos éticos

O desenvolvimento da presente pesquisa observou todos os critérios éticos presentes na Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde - que dispõe sobre pesquisas com seres humanos. Além disso, o trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de Sergipe (CAEE: 55167321.8.0000.5546).

3.7 Análise estatística

A análise de dados foi realizada através do software Jamovi (versão 2.6.26). De início, foram feitas análises descritivas, que incluíram média, desvio padrão, frequência relativa e absoluta, para que fosse possível caracterizar a amostra e variáveis utilizadas. Para analisar a associação entre variáveis quantitativas foi realizado o teste de correlação de Pearson. Nesse contexto, foi realizada também análises de regressão linear para examinar eventuais relações preditivas entre as variáveis utilizadas. Os resultados foram considerados estatisticamente significativos quando p < 0,05.

4 Resultados

Nossa amostra foi composta por 423 estudantes de graduação da Universidade Federal de Sergipe. A maior parte dos indivíduos era do sexo feminino (64,3%), apresentando uma idade média de 21,8 anos (desvio padrão = 4,66; faixa etária entre 18 e 62 anos). Além disso, a grande maioria estava solteiro (96,5%) e não possuía vínculo empregatício (32,2%).

A maior parte dos estudantes estavam matriculados no campo de São Cristóvão (79%). Os cursos em que estavam ligados foram agrupados de acordo com a área de conhecimento, destacando-se a área de Ciências da Saúde como a mais representativa (28,4%), seguida por Ciências Exatas e da Terra (15,6%), Engenharias (13,9%), Ciências Biológicas (12,1%), Ciências Sociais Aplicadas (9,0%), Linguística, Letras e Artes (8,7%), Ciências Humanas (7,3%) e, por fim, Ciências Agrárias (5,0%).

Com relação ao turno do curso, 40,9% cursavam a graduação no período vespertino, enquanto 23,2% no integral, 22,5% no matutino e 13,5% no noturno. Sobre o nível de satisfação com a área de estudo, mais da metade sentia-se razoavelmente satisfeito (57,7%), enquanto 33,3% estavam plenamente satisfeitos, 5,7% razoavelmente insatisfeitos e 3,3% totalmente satisfeitos.

Quando questionados sobre o meio de transporte mais utilizado para ir e voltar da universidade, grande parte (48,2%) dependia do transporte público (Ônibus), enquanto 21,5% iam a pé, 13,7% usavam carro ou moto próprios, 7,3% utilizavam outros meios, 6,1% recorriam a carros ou motos por aplicativo e 3,1% utilizavam bicicletas. Sobre a duração do percurso, 49,4% gastavam em média menos de uma hora de deslocamento e 41,4% gastavam entre uma e duas horas.

Do total de participantes, a maioria dedica pouco tempo ao lazer (1-2 horas, n=137 (32,4%); 3-4 horas, n=143 (33,8%)). Além disso, a maioria (n=299, 70,7%) ingeriam pelo menos um copo de 200 ml de café por dia, principalmente pelo turno da manhã (n=198 (46,8%)). Contudo, 365 (86,3%) estudantes relataram não consumir nenhum tipo de droga, enquanto 51 (12,1%) participantes consumiam álcool regularmente. Ademais, uma grande maioria (n=416 (98,3%)) não era fumante.

Quando questionados sobre problemas de saúde, a grande parte (77,1%) não possuía comorbidades diagnosticadas e não fazia uso de medicamentos regulares (77,3%). Dos que faziam uso de alguma medicação, 3,1% utilizavam medicamentos para induzir o sono. Sobre tratamentos ao longo da vida, 47% dos estudantes fazem ou já fizeram algum tratamento psicológico e/ou psiquiátrico e 21,5% já fez uso de ansiolítico e/ou antidepressivo.

Sobre os hábitos de vida, a grande parte dos entrevistados praticavam atividade física regularmente (62,6%), com frequência predominante de 3 à 5 vezes na semana (44%). Ademais, 51,3% indivíduos às vezes tiram sonecas durante o dia, 86,3% não fazem uso de nenhuma droga (álcool, cigarro, tabaco, maconha e haxixe) e 98,3% não fuma. Acerca do tempo de lazer semanal, 33,8% dos alunos informaram ter entre 3 e 4 horas disponíveis, seguido por 32,4% que indicaram ter entre 1 e 2 horas. Quanto ao consumo de café, 70,68% ingerem pelo menos 200 ml de café por dia, principalmente pela manhã (46,8%).

Em relação ao uso de aparelhos eletrônicos em momentos anteriores ao sono, 83% dos entrevistados disseram que não tinham o hábito de assistir à TV no seu quarto antes do sono, embora a maioria absoluta deles (91%) possuía o hábito de dar uma última olhada nas redes sociais antes de dormir.

Em relação à qualidade do sono, a pontuação média do Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI) foi de 6,81 ± 2,54. Observou-se que 81,1% dos avaliados possuíam uma qualidade de sono ruim, enquanto 18,2% apresentaram uma boa qualidade do sono. Ademais, foi encontrado uma associação significativa entre o PSQI e o curso (p=0,027), o meio de transporte (p=0,026) empregabilidade (p < 0,001), tempo destinado ao lazer (p < 0,001), uso de drogas (p=0,039), tratamento psiquiátrico e/ou psicológico em algum momento da vida (p=0,038), uso de ansiolítico e/ou antidepressivo (p=0,048) e sonecas ao longo do dia (p=0,045).

Sobre a presença de sonolência diurna excessiva, observou-se que a média dos resultados auferidos com a Escala de Sonolência de Epworth foi de 9,58 ± 4,69. Sob essa abordagem, verificou-se que entre os participantes, 49,2% apresentavam uma condição de sonolência diurna excessiva.

Relacionado ao nível de sofrimento mental, por meio da versão brasileira do SRQ-20, foi possível observar que 97,7% da amostra total apresentou algum nível de sofrimento mental, enquadrando-se nos seguintes níveis: 45,9% sofrimento mental leve, 40,7% moderado, 10,9% grave e 2,6% não apresentavam sofrimento mental.

Foi observado significativa correlação entre a sonolência diurna excessiva e o nível de sofrimento mental (R de Person = 0.230; gl = 421; p-value = < 0,001). No entanto, não foi encontrada correlação significativa entre a qualidade do sono e o nível de sofrimento mental (R de Person = 0.036; gl = 421; p-value = 0,457), e a qualidade do sono e a sonolência diurna (R de Person = 0.090; gl = 421; p-value = 0,065).

Na análise de regressão linear, foi possível observar uma correlação significativa e positiva (R = 0.230; F(1,421) = 23,6; p < 0,001) entre a sonolência excessiva e o nível de sofrimento mental, embora apenas 5.31% (R² = 0.0531) da variabilidade na sonolência excessiva possa ser explicada pelo sofrimento mental, indicando que outros fatores explicam a maior parte da variância na sonolência excessiva, confirmando a reação de Person.

5 Discussão

A presente pesquisa investigou a relação entre a qualidade do sono e a saúde mental em estudantes de graduação da Universidade Federal de Sergipe, revelando padrões e associações significativas que corroboram e expandem o conhecimento existente na literatura. A análise dos dados revelou uma prevalência considerável de má qualidade do sono e de sintomas de transtornos mentais entre os participantes do estudo. Esses achados estão em consonância com um corpo crescente de literatura que aponta para uma crise de bem-estar nessa população (SARUHANJAN et al., 2021; MILOJEVICH; LUKOWSKI, 2016; BECKER et al., 2018; RUSSELL et al., 2019; REIS et al., 2021; ALMARZOUKIet al., 2022).

Apesar da presente pesquisa não encontrar correlação significativa entre a qualidade do sono e a saúde mental dos estudantes de graduação, o aumento de sofrimento mental em consonância com o aumento da sonolência diurna apoia a existência de um ecossistema de bem-estar que é frequentemente desafiado no ambiente universitário. Nesse sentido, ao comparar o período de verão não acadêmico e o semestre acadêmico, Almarzouki et al (2022) observou que os estudantes apresentaram escores de sono e sofrimento significativamente piores no semestre acadêmico, concluindo que a má qualidade do sono estava significativamente correlacionada com a má saúde mental (ALMARZOUKI et al., 2022).

Os achados demonstram uma alta prevalência de má qualidade do sono e de sintomas de transtornos mentais, um cenário que é consistente com a literatura (SUNA & AYAZ, 2022; ALMARZOUKI et al., 2022; FUKUIE et al., 2024). O aumento do estresse entre estudantes universitários os coloca em risco de desenvolver transtornos de humor, como depressão, que podem não apenas afetar negativamente sua capacidade de aprender, mas também interromper seu sono (ALMARZOUKI et al., 2022). Essa prevalência elevada, combinada com a observação de que muitos estudantes não buscam ajuda profissional, sugere uma normalização do sofrimento e a existência de barreiras significativas ao acesso ao cuidado.

A análise aprofundada revelou que a qualidade do sono possui correlações significativas com diversos fatores sociodemográficos. Dessa maneira, o pouco tempo dedicado ao lazer, o meio de transporte utilizado, realização de tratamento psiquiátrico e ou psicológico em algum momento da vida, uso de ansiolítico e/ou antidepressivos, e a conciliação de estudos com trabalho, atuam de forma interconectadas, impondo uma carga cumulativa sobre o bem-estar dos estudantes. Além disso, um sono ruim interfere negativamente na composição corporal e no desempenho acadêmico (FUKUIE et al., 2024).

Como já vem sendo discutido na literatura (Evans et al., 2019; Laishram et al., 2025; Ohl et al., 2019), determinadas áreas de estudo, como os cursos da saúde, apresentam uma significativa porcentagem de estudantes que sofrem com uma qualidade de sono ruim e problemas de saúde mental, destacando a necessidade de abordagens diferenciadas e sensíveis ao contexto. Apesar do presente estudo reafirmar essa relação com o sono, não foi possível compreender com exatidão a proporção e as causas de interferências do curso na qualidade do sono, assim como não foi possível correlacionar a área de estudo com um grau de sofrimento mental, devido à baixa diversidade de estudantes de diferentes áreas.

O consumo de bebidas com cafeína ou energéticas e o uso excessivo de smartphones ou plataformas de mídia social, contribuem para uma piora na qualidade do sono e na saúde mental (ALMARZOUKI et al., 2022). Associações estatisticamente significativas foram encontradas entre uso excessivo de smartphones, procrastinação na hora de dormir e sintomas de saúde mental (CEMEI et al., 2024). No entanto, não observamos associação significativa entre qualidade do sono com e uso de celulares antes de dormir, bem como com a prática de atividade física, uso de medicações indutoras do sono, divergindo com a literatura (Li et al., 2024; Shimamoto et al., 2021; Twenge et al., 2017; Yang et al., 2023).

Foi encontrado uma significativa porcentagem (49,2%) de estudantes com sonolência excessiva diurna. Através da análise de correlações, foi viável determinar uma relação entre a sonolência ao longo do dia e a presença de sofrimento mental, embora a PSQI-BR e SQR-20 não tenham apresentado correlações entre si. Em relação ao bem-estar psicológico, 97,7% da amostra apresentou sofrimento mental, servindo de sinal de alerta para a necessidade de intervenções em fatores propiciantes.

A alta prevalência de problemas de sono e de saúde mental observada na população universitária sugere uma possível normalização do sofrimento. Quando uma dificuldade afeta uma parcela tão grande de um grupo, pode haver uma percepção de que esses desafios são uma parte "normal" da experiência universitária, o que pode levar os estudantes a subestimar seus sintomas ou a demora para buscar ajuda profissional. Essa inferência é corroborada por dados que indicam que, apesar de vivenciarem dificuldades emocionais, uma parcela significativa dos estudantes nunca procurou ajuda psicológica e deixou a universidade em segundo plano após adoecimento (FARIA et al., 2023).

O presente estudo, embora forneça contribuições valiosas para a compreensão da relação entre qualidade do sono e saúde mental em estudantes de graduação, possui limitações metodológicas que devem ser consideradas na interpretação de seus achados. A dependência de questionários de autorrelato, por exemplo, embora práticos para coletar dados de grandes amostras, podem introduzir vieses onde os participantes podem reportar informações de forma imprecisa ou socialmente aceitável. A discrepância entre a autopercepção da qualidade do sono dos estudantes e os resultados objetivos de instrumentos padronizados, como o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI), ilustra essa limitação, sugerindo uma falta de conhecimento sobre a saúde e higiene do sono.

A natureza dinâmica e bidirecional da relação entre a qualidade do sono e a saúde mental exige estudos longitudinais para uma compreensão mais aprofundada dos mecanismos causais. Outras limitações são a representatividade limitada da população estudada e a ausência de recortes mais detalhados por etnia, classe social ou outras variáveis sociodemográficas que poderiam revelar nuances importantes.

6 Conclusões

A presente pesquisa evidenciou um cenário preocupante quanto à qualidade do sono e ao bem-estar mental dos estudantes de graduação, demonstrando alta prevalência de má qualidade do sono, sonolência excessiva e sofrimento psicológico significativo. Ainda que não tenha sido encontrada uma correlação direta e significativa entre a qualidade do sono e os sintomas mentais na amostra estudada, a associação entre sonolência diurna e sofrimento mental sugere a existência de um complexo ecossistema que impacta negativamente o bem-estar dos estudantes em seu contexto acadêmico.

7 Perspectivas de futuros trabalhos

Primeiramente, é crucial que as futuras investigações transitem de desenhos correlacionais para estudos que permitam estabelecer causalidade e testar intervenções. Dada a relação bidirecional entre sono e saúde mental, estudos longitudinais são essenciais para mapear a progressão e a interação desses fatores ao longo do tempo. Além disso, a realização de ensaios clínicos randomizados para testar a eficácia de intervenções específicas, como programas de higiene do sono, terapias cognitivo-comportamentais para insônia (TCC-I) ou estratégias de manejo de estresse, é fundamental para identificar opções terapêuticas capazes de atenuar os impactos negativos observados. O acompanhamento multidisciplinar do estudante universitário é necessário para auxiliar no manejo das dificuldades e na melhoria da qualidade de vida e do sono.

Por fim, é importante explorar as variáveis que podem estar associadas às diferenças observadas e investigar o impacto de fatores ambientais e institucionais específicos. Isso inclui, por exemplo, a influência de políticas universitárias de apoio à saúde mental, a acessibilidade de serviços de aconselhamento e a flexibilidade acadêmica para estudantes que trabalham ou enfrentam longos deslocamentos. Tais investigações permitirão um entendimento mais preciso das necessidades dos estudantes e a formulação de recomendações baseadas em evidências para as instituições de ensino superior.

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